domingo, 18 de setembro de 2016

Sou telespectador! Não façam de mim consumidor!

Na linguagem tecnocrática muito em voga, incluindo na boca de muitos jornalistas, eu sou um consumidor de noticiários televisivos. Ora, se assim é, como encontro diariamente muitos defeitos nas notícias que me vendem, acho deveria exigir o Livro de Reclamações, para, no mínimo, lavrar o meu protesto. Desconheço, porém, a existência de tais brochuras em qualquer das estações portuguesas, privadas ou pública, pelo que me valho desta criação de um homem com nome adocicado Mark Zuckerberg (monte de açúcar), o Facebook, para, de vez quando, dar conta das minhas amarguras.

Como consumidor, sou, assim, posto entre aqueles que enchem as folhas de Excel que as chefias e as direcções dos referidos canais consultam diariamente para avaliarem subidas ou descidas nos índices de audiência e no «share». É assim que elas me vêem. A mim e a todos os telespectadores. Infelizmente. Dentro desta lógica, o cidadão que gosta de estar informado sobre o que vai acontecendo no país e no estrangeiro vale muito pouco. Diria até que, para alguns, mesmo nada.

Estes alguns são os que pensam e defendem que, se a notícia não vende, não presta. São os que consideram pré-histórica aquela velha máxima, segundo a qual um órgão de informação deveria informar, formar e entreter. Em meu entender, os órgãos públicos deveriam ser mesmo obrigados a respeitá-la. Mas, infelizmente, quem os lidera guia-se também por políticas mercantilistas e, pior, o patrão (Estado), cujo poder é exercido pelo Governo não é capaz de os pôr na linha.


Não me resigno a esta ideia de que os tempos mudaram e nada mais há fazer. Tenho consciência de é que é muito difícil contrariá-la, mas sei que não é impossível. Mas, para isso, é preciso remar contra a maré e exigir da tutela que respeite o cidadão e os direitos que lhe assistem consagrados na Constituição da República. A batalha pode e deve ser travada por quem assim pense também, desde logo para fazer ver a quem pode decidir sobre a matéria que, no caso da televisão pública, o cidadão não pode ser visto e contabilizado como mero consumidor. Eu, pelo menos, quero continuar a ser telespectador. Atento e interventivo. Elogiando, quando se justificar; criticando, quando tiver de ser. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Deixo aqui um recado e daqui lanço um alerta

Tempos houve em que os jornalistas sentiam orgulho e se esforçavam para corresponder a um slogan que exortava à leitura e visava inspirar confiança no leitor: Ler jornais é saber mais. Deixou de ser. Infelizmente. E parece que ninguém se importa. Vende mais quem se aproximar do pasquim. O que interessa é fofoca e maldizer. E, se vende mais, é porque há quem compre. Uma tristeza!

Com frequência preocupante, os narradores/comentadores de futebol falam do jogador como tendo necessidade de revelar proximidade e até relações de amizade, como o demonstra o uso do artigo definido antes do nome. «Vai agora entrar o Manel Joaquim por troca com o António Manuel» ou «que disparate acabou de fazer o Augusto Silva» e por aí adiante. Outras vezes, a gente chega a pensar que o nome é função. Dizem o Marcelo – assim mesmo, sem nome de família – quando deveriam dizer o Presidente da República. Desconhecem, seguramente, que o artigo definido antecede a função e que, formalmente, as declarações são importantes e justificam divulgação, por se tratar do Chefe do Estado, de um dirigente partidário ou desportivo, de um deputado ou de um médico, conforme o contexto, e não por terem proferidas por sicrano ou beltrano. Aliás, é até curioso verificar que algumas dessas pessoas, logo que deixam as funções, desaparecem, pura e simplesmente, do espaço mediático.

Outro exemplo desta enervante familiaridade é a entrevista em que o entrevistador trata por tu o entrevistado. Não há o mínimo de preocupação com a lei do distanciamento. E se se trata de entrevistar um futebolista, como Cristiano Ronaldo, nada como mostrar claramente que o jornalista faz parte do círculo mais próximo da estrela.

Mas voltemos aos disparates. Pelo que leio e oiço, já ninguém lança um alerta ou manda um recado. Agora, deixa. O verbo deixar adquiriu outro valor semântico e serve para tudo. Para recado, alerta, aviso, etc… Já o verbo pôr caiu no esquecimento. Colocar também serve para tudo. Já não se põe os pontos nos i, coloca-se. Qualquer dia, ainda vamos ouvir alguém dizer: olha que te coloco no olho da rua!

Preocupante é também verificar que tanta gente desconhece que desde é advérbio de tempo. Exemplos: «… vindo o criativo desde a faixa». Este excerto foi copiado de um diário desportivo, mas, com mais frequência se ouve nas televisões e nas rádios «desde Madrid… fulana de tal» ou «desde Luanda… sicrano» ou aquela outra forma, igualmente, disparatada, «a partir de Madrid, a partir do estádio do Dragão…», como se fosse preciso dar ideia de movimento, sempre que faz uma ligação ao exterior.

Desde é, nestes casos, um castelhanismo, como pontos percentuais são um anglicismo. Em Portugal, nas décimas, centésimas e milésimas usam-se vírgulas e não pontos. Os pontos são preciso, isso sim, nos ordinais, por exemplo (51.º) para que não apareçam com sentido errado, como se vê amiúde nos jornais e nos rodapés dos noticiários escritos de forma que a leitura sugere graus. Da temperatura ou dos ângulos. Por falar em ordinais, apetece-se ainda dizer que me vou convencendo de que muita gente nem sequer os sabe ler. Exemplo: fulano de tal é o 121 do ranking tal, em vez de centésimo vigésimo primeiro. E não me venham, por favor, com a treta de que é mais curto e inteligível…


A escrita, mas sobretudo o que se diz nas rádios e nas televisões, revelam bem, além da má preparação ou da preguiça de muitos profissionais, como somos pequeninhos e tacanhos. Fala-se como se estivéssemos no café à conversa com amigos e, na escrita, reproduzem-se os dislates com que diariamente nos ferem os ouvidos. Por isso mesmo, aqui deixo um recado – esforcem-se, aceitem humildemente as correcções de quem sabe mais – e lanço um alerta: a preguiça é má conselheira e enveredar pela via do lugar- comum e do facilitismo é o caminho mais rápida para a incompetência. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Só podia dar no que deu: Brexit!

Quando a avareza se sobrepõe à partilha, quando o egoísmo vence a solidariedade, quando interesses mesquinhos, a coberto da promessa de um nacionalismo redentor, mobilizam o cidadão, só podia dar no que deu. Quase 52% dos britânicos decidiram-se pelo abandono da União Europeia (UE) e o chamado poder europeu pode estar ferido de morte. Depois do Reino Unido, qua acabará por se desagregar, outros Estados-membros vão querer regressar ao passado e, passo a passo, acabará a própria União Europeia por se desmembrar.

Cada vez mais fica claro que globalização e integração são eufesmismo de uma política de exploração desenfreada de baixos salários e de aniquilação de direitos sociais que os burocratas de Bruxelas vêm pondo em prática sobretudo desde o início dos anos 90 no interesse dos grandes poderes económicos e total desprezo pela vontade popular expressa em votos.

Entre as muitas possíveis consequências do Brexit está, sem dúvida, uma muito provável guinada à direita, aglutinando gente que faz do nacionalismo, do populismo, do racismo e da xenofobia o fermento das suas forças.

A União Europeia são centenas de milhões de pessoas e não números simplesmente. Por mais que certos políticos e burocratas da política invoquem a frieza de cifras em folhas excel não há projecto humanista que possa vingar, se não houver ética e respeito pela dignidade humana. O lucro pode mover uma sociedade, mas não pode ser razão de tudo.


As políticas definidas por Bruxelas são podiam dar no deu: Brexit! E outras saídas se prenunciam já. Se a União Europeia ainda tem salvação, o que duvido muito, muita coisa vai ter de mudar depressa, a começar no respeito pelo cidadão e pelo seu voto. 

domingo, 19 de junho de 2016

Outra forma de mostrar e de ver o Euro-2016

Na Alemanha, os jogos do Euro-2016 são transmitidos em alternância pelos canais públicos ARD (1.º canal) e ZDF (2.º canal): os jogos são comentados no estádio por um só jornalista, tido como «expert» e, quem vê e ouve, percebe como eles estão bem preparados e sabem o que é comentar uma partida de futebol em televisão. Desde logo, não se perdem em palavreado interminável e narrações do óbvio, aquilo que o espectador está a ver. E até os nomes dos jogadores são pronunciados correctamente. Sei do que falo, porque já várias vezes fui eu que lhes ensinei os portugueses. Já agora, quando vivi na Alemanha, trabalhei na rádio e foi lá que aprendi que este pormenor – profissionalismo exige ou deveria exigir boa pronúncia dos nomes: basta uma chamada para a embaixada do país da respectiva selecção ou equipa. Há sempre alguém que ajuda. É que não há nomes impronunciáveis. Melhor ou pior, treinando-se, consegue-se sempre.


O lançamento do jogo é feito em estúdio por um moderador com outro «expert» - Mehmet Scholl, no ARD, e Oliver Kahn, no ZDF, ambos antigas estrelas do Bayern de Munique; no intervalo ambos comentam a primeira parte e, no final, comentam o jogo. Quando a partida termina, se o jogador fala alemão, a conversa de estúdio dá lugar à «Flash interview»; se não fala, poucos minutos depois, ouve-se o que ele disse com gravação simultânea. Há que esperar apenas o tempo de tradução e da gravação da voz «off». Sempre que joga a selecção alemã, é o seleccionador que se dirige ao estúdio improvisado no estádio, para se submeter às perguntas de um ou uma repórter. Pode também aparecer um jogador que se tenha destacado, ou não. Tudo como deve ser: conversa em ambiente de serenidade, sem ruídos de fundo nem gritos histéricos. Mas também fica claro que a federação alemã colabora com os canais que transmitem os jogos e abre as portas dos estágios nas vésperas dos jogos para que os «media» possa tem acesso aos jorgadores e não só. Boas práticas. 

Feito isto, pode ainda haver uma ou outra peças sobre a selecção alemã e sobre outras, bem como sobre o país ou os adversários da Alemanha, ou sobre os mais diversos apectos: curiosidades, históricos, etc… E termina sempre com uma montagem de texto e imagem sempre carregada de muito humor. Tudo em 30 a 45 minutos após o jogo.

Depois, a vida continua… Sempre que posso, é nestes canais que vejo o Euro, jogos de Portugal incluídos. Neste caso, sinto-me feliz por falar alemão e lamento que não seja uma língua que a esmagadora maioria dos portugueses falem e compreendam. 

sábado, 18 de junho de 2016

Quem não se sente, não é filho de boa gente

Seleccionador nacional, Fernando Santos (FotoFPF)
O seleccionador nacional saiu em defesa de Cristiano Ronaldo, alvo de críticas após o jogo com a Islândia. Compreende-se. Desde logo, para proteger o jogador, para lhe fazer ver que ele tem toda a protecção no grupo. 

Fernando Santos tentou desvalorizar as críticas e aproveitou a ocasião para tecer ele também críticas ao seleccionador da Islândia, outros elementos do «staff» e até ao público islandês pelo comportamento durante o jogo em relação a Pepe e a Cristiano Ronaldo. 

Disse ele: «quem não se sente, não é filho de boa gente». Tem razão. Mas não inteiramente, quando pretende justificar um comportamento criticável – queria ou não queira vê-lo assim – com outro igualmente criticável. Cristiano Ronaldo é mais do que o melhor jogador da selecção, da Europa e do mundo. Cristiano Ronaldo é hoje uma estrela planetária, um ídolo, inclusivamente idolatrado por muitos. Creio que ele tem consciência disso. Tem de ter. 


O estatuto que alcançou exige, por isso mesmo, comportamento adequado. Frustrado ou zangado com o empate, Cristiano Ronaldo não pode deixar de saudar os apoiantes no final da partida, de lhes agradecer o apoio. Mais, enquanto capitão, deve ser a aglutinar os restantes companheiros de equipa e até os do banco. Muita daquela gente que vai aos estádios em França vai também para vê-lo e espera dele um sorriso, um aceno, um gesto. E entre muita dessa gente – sobretudo entre os nossos compatriotas a trabalhar em França e em países vizinhos – há também quem pense como Fernando Santos: «quem não se sente, não é filho de boa gente».

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Do sonho à realidade vai a distância da vontade

O desalento expresso no rosto de Pepe (Foto UEFA)
Em competições como um Campeonato da Europa ou um Mundial, há golos que valem sempre mais do que o mero êxito desportivo. Os de Gareth Bale e Hal-Robson-Kalu (País de Gales), de Ádám Szalai e Zoltán Stieber (Hungria) ou de Birkir Bjarnason (Islândia), representantes de três pequenos países como Portugal, para os quais uma vitória numa competição desta grandeza chega a ser vista como algo mais importante do que um voto favorável nas Nações Unidos a favor de uma qualquer causa em que estejam empenhados. Desde logo, pela projecção mediática alcançada. 
Assim sendo, questiono-me sobre se a selecção portuguesa tem alguém com a responsabilidade de preparar também os jogadores para outras questões que não sejam só dos domínios técnico, táctico, estratégico, psicológico, etc...

Hoje em dia, conhecer o país da selecção que se vai defrontar, um pouco da sua história, a mentalidade e a forma de ser do seu povo pode ajudar, e muito, a atitude a assumir em campo durante os 90 minutos de jogo. Que o digam os jogadores franceses e russos.

 Neste grupo de pequenos países entram também a Albânia, cuja selecção vendeu cara a derrota com a França e a Eslováquia, que, venceu a Rússia (2-1) com mérito e justiça, um dia depois do desaire de Portugal. Os nomes dos seus heróis: Vladimír Weiss e Marek Hamsík. E tanto no Rússia-Eslováquia como no França-Albânia de ontem, viu-se também como vencedores e vencidos se empenharam. Podem ser invocados erros e falhas de ambos os lados, mas ninguém pode criticar quem quer que seja nestas duas partidas por falta de entrega e de querer.

Podem os jogadores portugueses proclamar orgulho em defender as cores nacionais, e acredito que sentem, mas têm também de estar sempre conscientes de que do outro lado do campo estão ou podem estar outros que sentem tanto ou mais orgulhosos do que eles, tanto ou mais motivados do que eles.

Ser favorito não basta. Do sonho à realidade vai, antes de mais, a força da vontade. E essa nem sempre foi evidente no jogo com a Islândia. Por isso, Portugal não venceu na estreia. Também não basta patentear melhor qualidade futebolística do que o adversário – e ela foi mais do que evidente. Como escreveu ontem, n´O Jogo, o agora treinador e seleccionador do Gabão, Jorge Costa, aos jogadores portugueses «faltou convicção». Sem ela, a França nunca teria vencido a Albânia.